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Campos do Jordão, 29 de março de 2017.

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01
2005

Alemão chora ao final da “Sinfonia nº 1”

por: - Atualizado: 01/08/2005 00:00
Alemão chora ao final da “Sinfonia nº 1”, regendo a Orquestra Acadêmica no Festival Internacional de Campos do Jordão Kurt Masur comanda Mahler com entusiasmo IRINEU FRANCO PERPETUOENVIADO ESPECIAL A CAMPOS DO JORDÃO Ao acorde final da “Sinfonia n.º 1” … Continua

Alemão chora ao final da “Sinfonia nº 1”, regendo a Orquestra Acadêmica no Festival Internacional de Campos do Jordão

Kurt Masur comanda Mahler com entusiasmo

IRINEU FRANCO PERPETUO
ENVIADO ESPECIAL A CAMPOS DO JORDÃO

Ao acorde final da “Sinfonia n.º 1” de Mahler, que encerrou sua apresentação de sexta-feira no Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, Kurt Masur chegou às lágrimas.
Não se pode dizer que a vida do regente tenha sido pobre em emoções. Aos 78 anos de idade, ele já tem tranqüilamente o lugar garantido na posteridade, com mais de uma centena de gravações, currículo enriquecido com a chefia de orquestras do porte da Gewandhaus de Leipzig e as filarmônicas de Londres e Nova York, e até um papel de destaque na transição política na antiga Alemanha Oriental.
Mesmo assim, Masur chorou. E não foi seu concerto mais impecável. Problemas de equilíbrio e afinação nos mostravam, aqui e ali, que a Orquestra Acadêmica, constituída pelos bolsistas do festival, possuía jovens de inegável talento, mas que só haviam tocado juntos uma vez, e ainda tinham muito o que aprender.
No pungente “Adágio” de Barber, que abriu o programa (tema do filme “Platoon”, de Oliver Stone), as cordas estiveram perto da perfeição, graças à excelência de professores do festival que a reforçavam, como o “spalla” Davi Graton e o violoncelista Raïff Dantas Barreto.
Colocadas à direita do regente, em posição invertida com os violoncelos, as violas -a cargo de outro professor, Alexandre Razera- esbanjaram excelência ao longo de toda a apresentação, mostrando que, afortunadamente, vai já longe o tempo em que era inconcebível elogiar violas brasileiras, mesmo nas orquestras profissionais.
Com a “Abertura Festival Acadêmico” de Brahms, vieram os sopros e o desequilíbrio. Masur rege a obra de cor e com profundo conhecimento de cada uma das canções estudantis que compõem o pot-pourri brahmsiano.
Mas a textura transparente da peça acaba expondo as limitações dos jovens instrumentistas.
Na segunda parte, o desafio maior: Mahler. Se Kurt Masur tivesse vindo ao Brasil apenas para “cumprir tabela”, teria optado por tempos e dinâmica “de segurança” -uma leitura achatada, sem paixão ou riscos.
Felizmente, não foi o caso. Regendo sem partitura, o maestro buscou os contrastes da “Sinfonia n.º 1” e exigia da orquestra pianíssimos que se mostravam difíceis até mesmo para os professores do festival que chefiavam os naipes de madeiras e metais durante a execução da obra.
Neste Mahler sem rede de segurança, tombos pareciam praticamente inevitáveis, tanto na delicadíssima introdução do primeiro movimento, quanto nos jogos de selvagens jogos de intertextualidade do terceiro.
Em compensação, o caráter dançante do segundo movimento da sinfonia exalou uma “joie de vivre” nem sempre presente nas execuções das orquestras adultas.
A sorte de uma sinfonia como a primeira de Mahler se decide mesmo é no final, longo e emocionalmente intenso, que sintetiza a música dos movimentos anteriores.
Difícil dizer se foi Masur quem galvanizou a Orquestra Acadêmica ou se foi o entusiasmo de seus integrantes que contagiou o maestro.
Música não se faz apenas com notas certas, e a apresentação de Campos do Jordão testemunhou, de maneira eloqüente, que uma execução entusiasmada, ainda que com falhas, é mil vezes preferível à frieza dos burocratas sinfônicos, que executam todas as notas com exatidão enquanto pensam apenas no holerite do mês. Foi um Mahler empolgado e empolgante.
Com um didatismo condizente com sua condição de professor do festival, Masur explicou as afinidades estéticas e geográficas que o levaram a escolher uma das “Danças Eslavas” de Dvorák para o bis. Pedidos para mais repetições houve, veementes e insistentes. No entanto, o maestro preferiu dizer basta.
Negado o bis extra de sexta, anuncia-se outro, mais importante: dizem que ele gostou tanto do festival que prometeu voltar uma vez a cada dois anos. Tomara que seja verdade.
Avaliação:

O jornalista Irineu Franco Perpetuo viajou a Campos do Jordão a convite da organização do festival